Estimo que se encontre recuperado em relação ao problema de saúde
recentemente divulgado.
Sobre a sua obra “Quase Memórias” vol. 1, e
as transcrições que nela faz do meu livro “Memórias da Revolução – Portugal
1974-1975” (2004), quero chamar a atenção para as seguintes incorrecções
praticadas voluntária ou involuntariamente (edição do Circulo de
Leitores):
1. Na pag. 470, depois de transcrever declarações de Álvaro Cunhal
a Oriana Falacci, faz a seguinte referência: in Manuel Amaro Bernardo, Memórias
da Revolução, pags. 666 e 667. Ao longo das 30 páginas seguintes, cita, por duas
vezes, passagens do livro do Dr. Álvaro Cunhal, A Verdade e a Mentira da
Revolução de Abril e oito vezes uma obra de António Reis. Quando chega à página
500, em que faz a citação usual, com a indicação de in António Reis, ob. cit.,
pág. 58 (que já fizera antes por várias vezes) passa a transcrever, ao longo uma
página e meia, excertos de uma entrevista do Coronel Jaime Neves. Depois
acrescenta: ob.cit., pag.ª 492 e seguintes.
O que é que qualquer leitor
deduz deste texto? Que tal entrevista consta da obra de António Reis, o que não
é verdade. Também não é verdade que tenha sido eu a fazer a 1.ª parte da
referida entrevista e que inclui na sua transcrição. Como consta de uma nota de
pé de página (p. 492), fê-la o jornalista Martinho Simões, tendo eu acrescentado
que foi feita na minha presença.
2. Depois, mais à frente, quando faz a
transcrição da entrevista do General Lemos Ferreira, durante cerca de duas
páginas (!), termina com ob. cit. 543 e seguintes, como se, à semelhança da de
Jaime Neves, tal constasse na obra de António Reis. Neste texto, CEMGF deve ser
substituído por CEMFA (Chefe do Estado-Maior da Força Aérea), General graduado
Morais da Silva … A propósito, gostaria de saber a razão porque as palavras
General e Coronel (ou Capitão) não são escritas com letra maiúscula neste e
noutros livros, e as Dr. e Eng.º tem esse “direito”…
3. A seguir, na página
504 do seu livro, surge outro erro grave. Confunde o Tenente-Coronel
Pára-quedista António Ramos, ex-ajudante de campo do então General António de
Spínola com o Coronel Armando Ramos, que intitula de seu “ajudante de campo”
(onde foi arranjar esta designação, pois não tinha direito a tal, nem era
general das FA?) e que o acompanhou em algumas diligências no período da
descolonização. O que eu entrevistei e consta da página 524 do meu livro,
“Memórias da Revolução (…)” foi António Ramos, falecido em 1997. Foi este
oficial, e não Armando Ramos, que afirmou a propósito de “quem empurrou e de
quem foi empurrado”:
(…) a extinção pelo CEMFA (e não o CEMGFA, General Costa
Gomes), do Corpo das Tropas Pára-quedistas, dias antes do 25 de Novembro, e o
corte da estrada em Rio Maior, apenas na véspera. Depois disso, o PCP
encolheu-se e quem saltou foi a esquerda festiva! (…)
Como sabe o percurso
destes dois oficiais no pós-11 de Março é completamente diferente. Enquanto
Armando Ramos se exilou no estrangeiro, António Ramos foi detido e esteve metido
em Caxias até ao 25 de Novembro. Assim torna-se incompreensível como foi feita
esta incorrecção…
Aliás, erro idêntico já fora cometido a propósito do 11 de
Março, onde textos do meu livro são igualmente citados durante cerca de oito
páginas seguidas (!) – pp. 403 a 411. Aí se pode ler:
“ (…) Declararam também
que viram a lista (da matança da Páscoa) o capitão António Ramos e o
primeiro-tenente Carlos Rolo, - segundo o tenente-coronel Armando Ramos, que foi
o chefe de Gabinete do Presidente Spínola (ob. cit., pág. 363)”
À semelhança
do sucedido no 25 de Novembro, este texto está completamente adulterado/alterado
em relação ao constante no “Memórias da Revolução (…)”, onde na entrevista ao
Ten-Coronel António Ramos, ajudante de campo do então General António de Spínola
(e não chefe de gabinete) ele afirma:
“(…) Os únicos que disseram ter visto
essas listas foram o Armando Ramos e o Carlos Rolo. (…)”
4. Ainda na referida
página 504 do seu livro podemos encontrar outro erro, onde, para além de
continuar a citar uma obra, como sendo de António Reis e não a minha, afirma que
Salgueiro Maia mandou o seguinte recado a Carlos Fabião, por intermédio do
Brigadeiro graduado Sacramento Marques: “Diz ao Fabião que acabe com essa
bagunça em Lisboa. Porque, senão, a EPC, em três dias põe Lisboa com a língua de
fora (…)” E a transcrição deste recado estende-se ao longo de mais sete linhas e
terminando com a ob. cit., págs. 527 e 528.
Ora, quem tal afirmou não foi o
Salgueiro Maia, mas o Tenente-General Alves Ribeiro que, na altura dos
acontecimentos (1975), era tenente-coronel e comandante da Escola Prática de
Cavalaria (EPC), numa reunião no EME, em 22 de Novembro. Salgueiro Maia tinha o
posto de capitão, comandava o esquadrão de carros de combate da EPC e já
falecera (1993) antes desta entrevista.
E as transcrições de “Memórias da
Revolução – Portugal 1974-1975” terminam com excertos da entrevista de Paradela
de Abreu (pp. 505).
Julgo que os intervenientes atrás referidos, tal como
eu, têm todo o direito a que a verdade dos textos transcritos seja reposta
publicamente, pelo que se aguarda a devida rectificação em futuras próximas
edições do “Quase Memórias”, quer da Casa das Letras, quer do Círculo de
Leitores.
Fiquei “desvanecido” com a prova de credibilidade que atribuiu ao
livro em questão, e merecedor de tão extensas transcrições. No entanto sobre o
25 de Novembro, poderia já ter feito alguma referência ao meu último trabalho
(em co-autoria) – 25 de Novembro de 1975; os “Comandos” e o Combate pela
Liberdade –, publicado pela Associação de Comandos (distribuído pela Bertrand),
aquando do 30.º aniversário desse evento. Tem o prefácio do General Tomé Pinto e
o posfácio do General Ramalho Eanes, e foi lançado no IDN, com apresentação do
Prof. Doutor Barbosa de Melo, também ex-Presidente da Assembleia da República.
Seria uma fonte com dados mais actualizados.
Pena foi que, como referido e
proposto em “Memórias da Revolução (...)” – p. 691, os “convocados” dos Comandos
(idos da vida civil, como voluntários), que “deram alma e capacidade de actuação
ao Regimento de Comandos”, ainda não tenham sido desta vez homenageados pelo
Governo Português. Como sabe, a Democracia portuguesa não nasceu com o 25 de
Abril, mas apenas na sequência da contenção do golpe de 25 de Novembro de 1975,
que tornou possível a aprovação da nova Constituição, e apenas se concretizou em
1982, com a extinção do Conselho da Revolução. Como diz o Povo. “De mal
agradecidos está o inferno cheio…”
Igualmente não posso deixar de lamentar o
sucedido com as “Quase Memórias” e atrás relatado, por parte do político que
continua a ser e foi uma referência na vida política nacional nas últimas três
décadas.
Na minha opinião, qualquer manipulação poderá ser aceitável quando
praticada por políticos de esquerda ou de direita. Mas quando saem da vida
política activa e se tornam “apenas” autores de trabalhos de carácter
histórico/científico deverão eticamente refazer os seus procedimentos. Mas isto
é somente a opinião de um militar (coronel), cujo posto é habitual ser redigido
(antes do seu nome) em livros e na Comunicação Social, com “letra pequena”.
Manuel Amaro
Bernardo













